Carta de chamado à construção da Teia dos Povos em Luta em Santa Catarina

Nós, sementes da terra, saudamos e pedimos licença às nossas ancestrais, guerreiras e guerreiros, guardiãs e guardiões das águas, das florestas, das sementes e dos territórios.

Territórios da cidade, campo e da floresta convocam territórios, comunidades, movimentos sociais, organizações políticas, coletivos e pessoas engajadas com a causa, a se somarem para tecermos a 1ª Pré-Jornada de Agroecologia na Aldeia Mbya Tava’í, como passo concreto para a articulação da Teia dos Povos em Luta em Santa Catarina.

Nos organizamos contra um projeto histórico de dominação que tem bases no colonialismo, no racismo, no patriarcado e no capitalismo. Esse sistema, sustentado por séculos de exploração, segue avançando sobre nossos corpos e territórios, atualizando suas formas de violência e aprofundando a destruição da vida — uma continuidade do que já se expressava nos massacres e repressões que marcaram a história deste Estado.

Em Santa Catarina, esse projeto se expressa de forma concreta e violenta. O agronegócio avança sobre os territórios, contamina nossas águas com venenos, destrói a biodiversidade e adoece nosso povo. A especulação imobiliária expulsa comunidades, cerca a terra e transforma o direito à vida em mercadoria. O custo de vida aumenta, os territórios são pressionados, e a autonomia dos povos é constantemente atacada.

Vivemos também o agravamento da emergência climática, que se manifesta no aumento das enchentes, deslizamentos, ciclones e outros eventos extremos que atingem com mais força os territórios populares, indígenas e periféricos — revelando que a destruição ambiental não é um acidente, mas consequência direta de um modelo que explora a terra sem limites e abandona os povos à própria sorte.

A violência contra as mulheres se intensifica como parte desse sistema, atingindo de forma brutal corpos e vidas que sustentam nossas comunidades.

O racismo estrutural, profundamente enraizado neste estado, segue invisibilizando, marginalizando e violentando povos indígenas e negros, enquanto a extrema direita avança, inclusive com a presença de células neonazistas em nosso território — expressão atualizada de um projeto que nunca deixou de operar.

Mas Santa Catarina também é território de resistência. É a força dos povos indígenas. É a força dos povos quilombolas. É a força das comunidades tradicionais e camponesas. É a força da união das comunidades periféricas.

É também a memória das lutas populares que seguem vivas — das organizações operárias que construíram formas de apoio mútuo e autogestão no início do século passado, enfrentando a exploração industrial, às revoltas que denunciaram a violência do Estado contra corpos negros e pobres.

Reconhecemos que Santa Catarina ocupa hoje lugar central em disputas que impactam todos os povos do Brasil, como a imposição da tese do Marco Temporal — um grave retrocesso que aprofunda o genocídio dos povos indígenas e reafirma a lógica de expropriação dos territórios.

Compreendemos, portanto, que a colonização não é passado. Ela segue em curso, atualizando suas formas de violência, controle e destruição da vida. É esse mesmo projeto que ontem financiou massacres e hoje se expressa no agronegócio, na mineração, na especulação e nas políticas que negam direitos.

Diante disso, afirmamos que somente a união dos povos — indígenas, quilombolas, tradicionais, camponeses, periféricos e populares — poderá enfrentar esse avanço.

Reafirmamos também que nossa ancestralidade e nossas cosmovisões não são apenas memória, mas sim, força viva de luta. Que a espiritualidade dos povos esteja a serviço da defesa da terra e dos territórios. Inspiramo-nos nos caminhos dos rezadores guarani, dos povos Kaingang e Xokleng que seguem mobilizando seu povo na retomada de suas terras ancestrais, e nas muitas histórias de resistência que marcaram este chão, como a Guerra do Contestado.

O Contestado — assim como tantas outras insurgências — não terminou. Ele segue vivo na resistência dos povos que hoje enfrentam o avanço do capital sobre seus territórios. Nelas, a força espiritual e a organização coletiva caminham juntas como pilares da resistência.

Essa é a crise produzida pelos de cima. Para se manterem no poder, nos dividem, nos isolam e tentam nos convencer de que não há alternativa. Mas nossos povos seguem resistindo. Seguimos cultivando a terra, protegendo as águas, transmitindo saberes, mantendo viva a memória e organizando a luta.

É diante dessa realidade — de violência histórica e presente — que afirmamos a necessidade de seguir tecendo a Teia dos Povos em Luta em Santa Catarina.

Uma grande aliança entre os de baixo.

Uma articulação baseada no apoio mútuo, na solidariedade e na construção de autonomia dos povos a partir da luta por terra e território!

Nos guiamos pela agroecologia como prática de cuidado e transformação, pelos saberes ancestrais como fundamento, e pela espiritualidade dos povos como força que orienta nossa caminhada.